Da dor à solução: capixaba transforma experiência com bullying em plataforma de proteção aos alunos
Após sofrer exclusão durante a própria infância e, anos depois, acompanhar a filha passar por situação semelhante, a advogada Tainá Moura transformou a experiência pessoal no Guardian Edu, plataforma criada para aproximar estudantes, famílias e escolas no enfrentamento ao bullying
Uma experiência dolorosa vivida ainda nos tempos de escola acompanhou a advogada capixaba Tainá Moura por muitos anos. Vítima de bullying psicológico e exclusão, ela cresceu carregando marcas que só mais tarde conseguiu dimensionar.
Tainá Moura

Décadas depois, já mãe de dois filhos, Tainá se viu novamente diante do problema — desta vez acompanhando o sofrimento da filha mais nova.
A experiência como vítima, mãe e advogada acabou dando origem ao Guardian Edu, startup capixaba que desenvolveu uma plataforma digital para facilitar denúncias de bullying, cyberbullying e outras formas de violência no ambiente escolar.
“Eu sofri bullying psicológico, de exclusão, durante anos na escola. Essa violência deixou marcas. Hoje entendo o quanto foi nocivo viver aquele tempo, naquela turma, e ter que me desdobrar para sobreviver.”
Quando a história se repetiu com a filha
Tainá é mãe de uma menina de 10 anos e de um adolescente de 14. Quando percebeu a filha caçula enfrentando uma situação semelhante àquela que havia vivido, a experiência deixou de ser apenas uma lembrança.
“Como mãe, revivi isso com minha filha caçula. E foi difícil demais. Ver um filho sofrendo é o pior dos cenários.”
A menina iniciou acompanhamento psicológico e, por recomendação profissional, a família decidiu pela mudança de escola.
O problema imediato foi superado, mas Tainá não conseguiu simplesmente virar a página.
Como advogada, começou a pesquisar mais profundamente o bullying, os mecanismos de proteção existentes e as responsabilidades das instituições de ensino. Quanto mais estudava, mais percebia que outras famílias enfrentavam dificuldades semelhantes.
“Viramos a página. Porém, eu fiquei inquieta com toda a informação que obtive e mais inquieta ainda por saber que um universo de crianças e adolescentes sofre diariamente nas escolas.”
Da inquietação surgiu o Guardian Edu
Foi dessa experiência que nasceu o Guardian Edu.
A proposta é criar um canal digital estruturado para que alunos, pais e responsáveis possam comunicar episódios de bullying, cyberbullying ou outras formas de violência diretamente à instituição de ensino.
Pela plataforma, o usuário pode escrever o relato, enviar áudio, anexar provas e identificar os envolvidos. Depois do registro, a escola recebe a ocorrência e o aluno pode acompanhar o andamento do procedimento.
Há ainda uma funcionalidade pensada para situações de maior vulnerabilidade emocional.
“O aluno poderá pedir ajuda caso esteja emocionalmente vulnerável. A escola recebe um alerta.”
A ideia é evitar que sinais importantes se percam e oferecer às instituições um mecanismo organizado para receber, registrar e acompanhar cada ocorrência.
Tecnologia para quebrar o silêncio

Um dos maiores obstáculos enfrentados por crianças e adolescentes vítimas de bullying é justamente conseguir falar sobre aquilo que estão vivendo.
Vergonha, medo de represálias, receio de não serem acreditados ou simplesmente dificuldade para conversar pessoalmente com um adulto podem prolongar situações de sofrimento.
O Guardian Edu tenta utilizar a tecnologia para diminuir essa barreira.
Quando falar pessoalmente é difícil, oferecer outro caminho para pedir ajuda pode ser o primeiro passo para romper o silêncio.
Para Tainá, também é fundamental que as escolas entendam que uma denúncia não pode simplesmente ser ignorada. A legislação brasileira estabelece deveres relacionados à prevenção e ao enfrentamento da violência sistemática no ambiente escolar, e eventuais responsabilidades precisam ser analisadas conforme cada caso concreto.
A advogada relata que famílias têm recorrido inclusive ao Judiciário e a instrumentos de documentação quando entendem que não encontraram resposta adequada das instituições.
Plataforma chega a alunos de escola de Vitória

No dia 9 de setembro, o projeto alcançou uma etapa importante.
Segundo Tainá, uma grande escola particular de Vitória passou a disponibilizar o Guardian Edu aos estudantes do Ensino Fundamental II, do 6º ao 9º ano.
A implementação representa a saída da ideia do papel e sua chegada ao ambiente para o qual foi originalmente concebida.
Mais do que a história de uma startup, porém, a trajetória do Guardian Edu começou com uma experiência que Tainá conhece por dois lados: primeiro como criança que sofreu exclusão e, muitos anos depois, como mãe tentando proteger a própria filha.
Uma dor que começou dentro de uma sala de aula acabou transformada em uma ferramenta criada para que outras crianças não precisem enfrentar a mesma situação em silêncio.
Para Tainá Moura, essa talvez seja a principal razão de existir do Guardian Edu: dar voz a quem, muitas vezes, ainda não sabe como pedir ajuda.


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