Protagonismo midiático de vereadores do PSB pode empurrar a Cesan para o centro da crise ambiental em Vitória

Protagonismo midiático de vereadores do PSB pode empurrar a Cesan para o centro da crise ambiental em Vitória

Na ânsia de ocupar o espaço da oposição e marcar posição no debate público, os vereadores Pedro Três e Bruno Malias acabaram abrindo uma frente que pode ter saído do controle.

Ao deslocarem o foco da misteriosa mancha escura nas praias de Vitória para a narrativa de “níveis perigosos de coliformes fecais”, os parlamentares acenderam um alerta que não atinge só a Prefeitura de Vitória. A bomba respinga, sobretudo, na Cesan — estatal responsável pelo saneamento da capital e vinculada ao Governo do Estado.

E é aí que o jogo político complica.

De quem é a bronca, afinal?

Saneamento básico não é discurso de palanque. É contrato, é responsabilidade legal e é operação técnica. Pela legislação federal, o serviço é municipal, mas quem executa, na prática, em Vitória, é a Cesan, empresa pública do Governo do Estado.

Traduzindo:
se tem esgoto indo parar no mar, alguém falhou na operação do sistema.
E esse “alguém” não é o prefeito — é quem opera a rede.

Ou seja, na tentativa de desgastar a gestão municipal, os vereadores podem ter colocado holofote direto na estatal comandada por um aliado político do próprio PSB. Um tiro que pode ter saído pela culatra.

Denúncia técnica ou barulho de rede social?

Fiscalizar é obrigação de vereador.
Transformar fiscalização em espetáculo, não.

Falar em coliformes fecais no mar não é chute. É coisa séria. Envolve:

  • coleta técnica adequada,

  • cadeia de custódia,

  • laboratório credenciado,

  • laudo com base em parâmetros legais,

  • e comunicação aos órgãos ambientais.

Sem isso, vira ruído.
E ruído em tema sanitário vira pânico, desgaste institucional e munição política mal calibrada.

A pergunta que ninguém respondeu até agora é simples:
teve laudo técnico oficial ou foi coleta improvisada pra render vídeo?

Porque, se houver prova, o caso é gravíssimo.
Mas, se não houver, é pirotecnia — e pirotecnia em tema ambiental cobra preço alto depois.

O efeito colateral: fogo amigo

Na política capixaba, o episódio soa menos como fiscalização madura e mais como descoordenação interna.

Ao tentar empurrar a crise para o colo da Prefeitura, os vereadores acabaram puxando a Cesan para o centro do furacão. E a Cesan, hoje, está sob comando de um nome do próprio campo político deles.

Faltou conversa interna?
Faltou cálculo político?
Ou foi só afobação por engajamento e protagonismo?

Seja qual for a resposta, o efeito colateral é claro: o desgaste bateu na porta errada.

No fim das contas…

Se há lançamento irregular de esgoto no mar, que se investigue com rigor técnico, transparência e responsabilização de quem opera o sistema.

Se não há, a cidade não pode virar refém de narrativas construídas no improviso.

A população tem direito à verdade — não à versão mais viral.

Porque saneamento básico não se resolve com frasco plástico, live no Instagram e discurso inflamado.
Se resolve com dado técnico, contrato na mesa e cobrança no lugar certo.

E, nesse episódio, talvez a única coisa despejada sem tratamento adequado tenha sido a precipitação política.